27 Junho 2008

Editora Éblis: lançamentos 2009


25 Maio 2008

na unha de fome da poesia
há pouca
ou nenhuma
bastança
há muita ou pouca
secura
depende
da hora que cabe
nas rachas do dia
nas frestas da noite
nas pausas dos juros de mora
nas multas
nas raivas
nas ranhuras
que o poema cava
nos olhos
na boca
retardando e prolongando a tensão
do corpo
dos dedos
cravados nas teclas de plástico
como unha e carne do poema

16 Janeiro 2008

no prelo in post

a ode dos tragos
em goela seca
e a
ordem dos goles
na
lamúria de lêmures
bodejos de januária

meia-lua lua-cheia
cornucópia transbordante
eis o canto do bode
degola no espeto no ferro
gônadas os cornos
pra queimar brasas e alecrim
ossos olhos cascos fendidos
pele das tripas coração
fressuras para Warhol
buchada Campbell’s
made in Brazil/for export

para com cachaça e mel
libar aos exus da língua

22 Outubro 2007

um poema do meu novo livro Portfólio (no prelo)

no enxame desossado da caligrafia
poesia de púlpito (pudica de merda!)
réu confesso canicular em posse de
adolescente do XIX em pose de 3x4
esgotou-se pelo soalho que enchia a sala
tórax piloso (pilífero) em bagas
de tesão contornada pelas pernas

de véspera espera abduzida
o esparramo de grafite ossos serragem
no poema que esperava se negava
linguajar solar das janelas gêmeas
mandava contra nadava contra
os nós da linguagem
na robustez (simbolista!) da folha desassossegada

resultado: toada escassa de pistilos da estação
pro-soluto: arriscar em ações ao portador
desinvestir da poética atulhada dos
poetas mortos em sociedades anônimas
estranhar-se de retratos porcelana prataria
desbastar pó desalinhavar nós
sobrescrever multitudinosa atitude entranhada

30 Setembro 2007

Pele, carne, corpo na poesia de Marlon de Almeida

(...) Do poeta Marlon de Almeida se pode dizer agora: nele o homem empresta o corpo à sua poesia, esta vivifica o homem e ambos iluminam a vida. Assim, abdicando do improviso e do poema fácil, do humor casual e do anedótico que o meio urbano suscita, o poeta tira a pele do próprio corpo para costurar a cidade e fabricar o poema, nos proporcionando a partilha e o prazer do texto, como nesta estrofe do poema Desgarrado, (...) Artigo na integra: In: Porto & Vírgula, Porto Alegre, n.54, 2004, p. 54-57

29 Julho 2007

sobre No assoalho duro, de Ronald Augusto. editora Éblis, 2007

O título do livro de Ronald Augusto é catafórico da poética que o sustenta: uma escrita vigorosa, severa, dura e mesmo ríspida na sua função poética, no seu constitutivo estético. Leia-se esta aspereza na perspectiva de sua produtividade textual, na sua potência de invenção e intervenção sobre a linguagem. E, justamente ai, é que se encontra toda a expertise do poeta. No assoalho duro é um livro onde a escritura se faz entre corrosiva e escarificante do senso-comum poético.

Um conjunto - um assoalho xadrez - de 18 poemas fricativos, escritos entre 1988 e 2006 dão volume ao magro livro.

jejum ergo coroa destronante/ jejum disse jesucristo enquanto/ levava à testa renhidos picos// cesto vazio seco sem o pão ázimo/ nem azia nem pedrarias beco/ básico câmara contraespiã// movediça e especular/ desdobrando braços no mais íntimo/ do palácio elísio de kublai khan (p.5)

Como a filosofia de Nietzsche, do qual Ronald é insistente leitor, No assoalho duro é um livro para espíritos livres e que poderia trazer em epígrafe a seguinte confissão: Doravante solitário e maldosamente desconfiado de mim tomei dessa forma, não sem desgosto, partido contra mim e por tudo o que precisamente a mim fazia mal e me era duro (...) (Nietzsche, Humano, demasiado humano, § 4)

A lírica de Ronald é solitária, desconfiada, descontente, partida contra si, mas..., mas que se deixa partilhar, que se deixa confiar, que contenta no descontentamento. No poema a seguir isso se evidencia:

caminho cerrado trecho de via interior/ mergulho por escadaria/ meus faróis disparam um túnel na treva porosa/ fachopaco não alcanço nunca a desembocadura// ao longo/ pegadas no arco dessa não-parede/ impregnada de úmida música muda/ pequenas solertes pessoas/ só olhos flutuantes/ lagartixas de cera (p.11)

O ritmo poético constrói a imagem mesma da comunicação poética do livro: a miopia da linguagem que busca seu leitor por uma estreita via da selva obscura e porosa (lacunar e corrosiva), que busca a experiência estética pelo túnel de degraus úmidos da escritura/leitura, cuja saída esta sempre aquém e além do aqui-agora.

Entenda-se: a miopia é inventada na lucidez, na vertigem do fazer poético. No assoalho duro é um livro marcado pelo signo de Lúcifer. Um livro onde a lucidez amarra imagem-ritmo-idéia e se exige no leitor, ensinando, ainda, que a poesia não é fácil e nem é facilitadora, mas que é convite à condição pensante:

(...) eu pratico/ rendilhados de prata e ouro onde/ não há sequer/ limalha de ouro migalha alguma/ que disfarce a prata barata/ da casa// e bebo a verde esmeralda salut/ cifra da mater natura num/ frasco de bolso a meio de xerez/ em troca/ da pérola mórbida doença - afecção/ a que me afeiçôo - de um marisco/ moribundo (...) (p.17)

14 Julho 2007

leitura de poesia

25 Junho 2007

de permeio à areia da noite
metamorfoseio o tempo e o espaço
de olhos percorridos de hoje até ontem

nove centenas de tentativas
para apreender a curvatura dos pensamentos
o pulsar dos sentidos

palimpalavras
não retêm itinerários, voltas
nem mesmos começos

pela manhã
lucidez e sombras acordam em celofanes
condenadas ao mormaço do dia

09 Abril 2007

poema do livro Solecidades, editora Éblis, 2007

costurei sapatos novos para o ritmo exato dos meus pés
carne quebrada, nervo rendido, osso desconjuntado.

na rua, os cadarços dos meus sapatos novos amoleceram
nos restos de chuva que a noite tocou em pianíssimo.

meus sapatos novos são brancos. são para curar
carne quebrada, nervo rendido, osso desconjuntado.

as costuras dos meus sapatos novos são em cruz,
com linha e agulha, por cima e por baixo.

um desconhecido pisou em meus sapatos novos, pisou
carne quebrada, nervo rendido, osso desconjuntado.

maços de marcela, cigarros, rótulos de antibióticos
absorveram-se nas solas dos meus sapatos novos.

a cidade encardiu meus sapatos novos, feitos para urdir
carne quebrada, nervo rendido, osso desconjuntado.

e o sol a pino veio beber a água amanhecida nas calçadas
e ressecar meus sapatos novos, sujos.

depois limpei o couro, lavei os cadarços, remendei as solas. cerzi
carne quebrada, nervo rendido, osso desconjuntado.

Solecidades, editora Éblis, 2007

08 Abril 2007


a ode dos tragos - ronaldo machado